Transtornos Alimentares X Autoestima

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Dra. Manoela Isadora Nogueira

Hoje, o Diário da Autoestima vai entrevistar a Dra. Manoela Isadora Nogueira. Ela é médica psiquiatra em Uberlândia (MG). Com um sorriso largo e acolhedor, Dra. Manoela destaca-se nos atendimentos dos transtornos alimentares. Sabemos que a imagem influencia muito na autoestima e, junto com a Dra. Manoela, iremos esclarecer algumas dúvidas a respeito dos transtornos alimentares X Autoestima.

Diário: Dra., como é sua experiência nos transtornos alimentares? Os homens ou as mulheres são mais preocupados com a aparência?

Dra. Manoela: A prática confirma o que mostra a literatura. Tanto entre os pacientes com transtornos alimentares, como entre o pacientes que procuram atendimento por outras razões, observo que há uma preocupação com a aparência mais notável entre as mulheres. Talvez, pelo que ainda trazemos consciente e inconscientemente do papel feminino ao longo da história: da necessidade de ser visualmente interessante para atrairmos um par e com isso constituir família e etc.

 Diário: Há um abuso de medicamentos para emagrecer ou isso é um mito?

Dra. Manoela: Percebo que hoje há um maior controle destas prescrições, mas ainda há uma grande demanda neste sentido. O paciente muitas vezes traz uma queixa deslocada: “Não estou bem porque não tenho o peso que gostaria e vou ficar bem se for ajudado a perder peso.” Nosso papel, enquanto profissional, é ajudar o paciente a olhar para si de uma maneira mais ampliada e identificar os sentimentos relacionados ao processo de ganho ou perda de peso, à relação com a comida e com o corpo. Feito isso, o paciente entende que o medicamento pode sim ser um aliado, por exemplo no controle de sintomas depressivos, ansiosos e compulsivos, mas em associação a outros cuidados igualmente importantes que possibilitem um cuidado integral, dentro de expectativas realistas.

Diário:  As dietas restritivas fazem mal à saúde?

Dra. Manoela: Sim e isto tem sido cada vez mais estudado e evidenciado. No livro “O peso das dietas” da nutricionista Sophie Deram, ela correlaciona a experiência clínica com dados de pesquisas que mostram que 95% das pessoas que fazem dieta, voltam a engordar, retomando o peso inicial ou até mais. Isto se deve a um mecanismo compensatório do organismo que após um processo de restrição evolui com aumento de apetite.

Diário: Pessoas com depressão tendem a se preocupar mais com a imagem?

Dra. Manoela: A pessoas deprimidas ficam envoltas em pensamentos negativos, o que muda a sua percepção de si e do mundo. Sendo assim podemos ter sentimentos de vergonha e auto-depreciação, o que acarreta o isolamento e piora da autoestima. Isto também passa pela relação com o corpo. Pode haver uma negligência com o auto-cuidado ou, ao contrário, uma preocupação excessiva com a aparência e com a avaliação externa.

Diário: O que significa “dismorfismo corporal”? É preciso buscar uma ajuda médica?

Dra. Manoela: O dismorfismo corporal ocorre quando há “preocupação com um ou mais defeitos ou falhas percebidas na aparência física que não são observáveis ou que parecem leves para os outros”. Este tipo de sintoma motiva muitas pessoas a procurarem recorrentemente médicos que trabalham com procedimentos estéticos como dermatologistas e cirurgiões plásticos e é importante estar atento ao aspecto emocional envolvido. A avaliação psiquiátrica é importante, pois existe tratamento e esse evita a exposição exagerada e sem uma indicação criteriosa a cirurgias e outras intervenções, ou que, mesmo que os procedimentos sejam feitos, aconteçam sem uma expectativa fantasiosa ou como forma de preencher vazios e carências.

Diário: Por que a imagem influencia tanto na autoestima?

Dra. Manoela: Didaticamente alguns autores dividem a IMAGEM CORPORAL em 3 dimensões: a sensorial: que tem a ver com as experiências captadas pelos sentidos, postura e sensações; a cognitiva: que envolve as crenças relacionadas à importância da aparência e isto passa muito por como cada um aprendeu e teve esse aspecto valorizado ao longo de seu desenvolvimento e a social: que tem a ver com o meio e a cultura em que o indivíduo se insere. Gosto desta divisão pois possibilita compreender um pouco da subjetividade que pode estar envolvida na IMAGEM. O processo de individuação e reconhecimento de si mesmo tem tudo a ver com a forma como cada um experimenta e olha para cada parte do seu corpo, cada característica, habilidades, limitações e formas de se apresentar socialmente.

Diário: Na sua experiência, o que leva uma pessoa se preocupar tanto com o peso mesmo estando com o peso normal?

Dra. Manoela: Existem muitas razões para isto, mas claramente são pessoas que estão infelizes consigo mesmas e transferem essa insatisfação para o corpo. É comum observarmos este tipo de sintoma em pessoas com características mais perfeccionistas, controladoras e exigentes, que passaram por experiências de crítica e desvalorização ou ainda que foram excessivamente estimuladas a valorizar a aparência ao longo de seu crescimento e desenvolvimento. Outra questão é que, a adolescência, período em que é mais comum a incidência de anorexia, é uma fase de muitos conflitos internos, independente de adoecimento psíquico. É o momento de despedida do corpo infantil e início da sexualidade adulta. Lidar com este novo corpo também pode ser difícil para alguns jovens.

Diário: O que significa IMC?

Dra. Manoela: Significa ÍNDICE DE MASSA CORPORAL. É uma medida de referência internacional reconhecida pela OMS (Organização Mundial da Saúde) que possibilita avaliar o risco de obesidade. Basta dividir o peso do indivíduo (em quilogramas) pela sua altura (em metros) ao quadrado. Para adultos as referências são:

< 18,5 – Abaixo do peso
18,5-24,9 – Normal
25,0-29,9 – Excesso de peso
30,0-34,9 – Obesidade Leve (Grau I)
35,0-39,9 – Obesidade Severa (Grau II)
> 40,0 – Obesidade Mórbida (Grau III)

Diário: Uma pessoa com baixa autoestima pode desenvolver um transtorno alimentar?

Dra. Manoela: Sim. A baixa autoestima pode funcionar tanto como um fator precipitante como um fator mantenedor de um Transtorno Alimentar e muitas vezes este vai ser o foco da psicoterapia, com técnicas específicas.

Diário: Qual a diferença entre anorexia e bulimia?

Dra. Manoela: A anorexia é caracterizada por restrição alimentar associada a perda de peso excessiva que faz com que o paciente fique abaixo do peso esperado para idade e altura. A bulimia é caracterizada pela presença de episódios de compulsão alimentar (ingestão de grande quantidade de alimento em espaço curto de tempo) seguidos de métodos compensatórios como vômitos provocados, uso de laxantes e diuréticos e/ou realização de exercícios em excesso. A anorexia também pode cursar com métodos purgativos, mas estes não tem caráter compensatório, pois não há compulsão alimentar associada. Outra diferença é que na anorexia a perda de peso sempre acontece; na bulimia, não. É comum que um mesmo paciente transite entre estes dois diagnósticos, dependendo da fase de seu adoecimento.

Diário: Dra. Manoela, conte-nos um pouco mais sobre sua experiência com paciente com baixa autoestima e qual o conselho (ou orientação) que a Sra. pode dar aos nossos leitores aqui do Diário da Autoesitma.

Dra. Manoela: Trabalhar com Transtornos Alimentares tem me possibilitado aprender muito sobre a complexidade da relação do ser humano com o mundo e como isto reflete a relação consigo mesmo. Sinto-me instigada a buscar cada vez mais no aspecto pessoal também. O que eu, Manoela, descobri é que é extremamente importante abrir espaço na vida de cada um para o SENTIR. Este sentir envolve a possibilidade de poder se expressar. Escolher uma atividade ou algum interesse que possibilite esta expressão de maneira livre, criativa, verdadeira e não-competitiva. No campo da imagem, atividades que envolvam consciência corporal como esporte, dança, artes marciais, yoga. Abrir uma possibilidade de se conhecer sem julgamentos e sem expectativas e poder se perceber de maneira amorosa. Às vezes é preciso se abrir para a experimentação, para aos poucos ir descobrindo o que faz sentido. Outra coisa interessante, é poder resgatar algo que já fez parte da vida, mas por alguma razão passou ou adormeceu. Digo isto por que no meu processo descobri a Dança Circular, uma prática que me deixou mais alegre e confiante, favorecendo o encontro comigo mesmo. Na infância eu também adorava dançar, mas isso foi ficando pra trás. Desde que voltei a dançar e em roda me sinto muito mais conectada comigo mesma Acredito que é possível que cada um encontre o seu refúgio ou algo que faça sentido dentro de cada Universo e fico muito feliz em poder compartilhar minha experiência aqui no Diário da Autoestima!

Diário: Agradeço muito por sua participação e principalmente por suas orientações. Seja sempre muito bem vinda ao Diário da Autoestima.

Forte abraço,

Mariza Matheus

Contatos da Dra. Manoela Isadora Nogueira: telefone: (34) 3237-2525

email: manoela623@gmail.com

instagram manoelanog17

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